Uma despensa gourmet | A Nossa Vida

Uma despensa gourmet

O século XXI trouxe uma novidade saborosa, ainda que muito desconhecida na altura, para os bons garfos – as lojas gourmet. Uma tendência que tem crescido exponencialmente nos últimos anos, conquistando os olhos e a barriga dos portugueses!

Quem foi o primeiro gourmet?

A palavra gourmet é francesa por nascença e direito, sendo que o termo foi inicialmente, e durante muito tempo, exclusivamente utilizada para designar os verdadeiros apreciadores de vinho… nada mais apropriado, uma vez que o vinho francês é um luxo em si só. Na altura, era obrigatório que um bom gourmet tivesse um palato refinado (para executar com profissionalismo o trabalho árduo de ser um expert em vinhos!), mas os gourmets cansaram-se de saborear os néctares dos deuses a solo e abriram o palato a outras iguarias, que passaram a acompanhar a sua taça de vinho. Considerada uma atitude excessiva, no século XVIII a fama dos gourmets passou de requintada e exclusiva, a extremamente depreciativa, com dedos acusadores a nomearem-lhes gulosos – um dos sete pecados mortais. Felizmente, o conceito gourmet voltou a ganhar o seu devido respeito graças a Grimod de la Reynière, cujo guia de restaurantes “Almanach des Gourmands” circulou em Paris entre os anos 1803 e 1812. Hoje, o conceito já correu mundo e as lojas gourmet abrem portas um pouco por toda a parte, portas que têm despertado o apetite e a curiosidade dos amantes da boa comida.

Um sucesso de sabores

Apesar da história do gourmet ter começado com o vinho, actualmente esse é apenas uma das centenas de produtos que estas lojas especializadas disponibilizam e que são um verdadeiro delírio visual e sensorial. A alimentação mais fashion do momento apela a todos os sentidos sem excepção e assenta em três bases fundamentais: qualidade, apresentação e autenticidade. A cozinha enquanto espaço de lazer, o acto de comer enquanto acto de prazer – foi esta nova postura dos consumidores que garantiu o sucesso das lojas gourmet, aliado à globalização dos gostos, à crescente preocupação em torno da saúde e da alimentação equilibrada, bem como o aumento do poder de compra. As lojas gourmet seduzem ainda porque nestes espaços, pensados ao pormenor também em termos de design, arquitectura e decoração de interiores, dá prazer andar às compras! Com frascos, latas e embalagens ultra-modernas que reclamam “leve-me para casa!”, dispensamos todo o tempo do mundo na descoberta de produtos desconhecidos e novidades inesperadas.

O que é nacional é bom

Se inicialmente as lojas gourmet enchiam as suas prateleiras apenas com artigos importados, hoje há um regresso às origens, com os melhores produtos seleccionados portugueses lado a lado com os seus conterrâneos internacionais. As especialidades regionais, os artigos de pro­dução limi­tada ou sazonal, assim como tudo aquilo que é feito de forma artesanal, vai no saco das compras. Em Portugal, estamos a falar naturalmente dos vinhos, azeites, queijos, enchidos, compotas e doces, entre outros artigos de elevada qualidade que devolveram aos portugueses o prazer de estar à mesa.

Que rica lista de compras!

Cansado da massificação dos produtos alimentares pré-fabricados, pré-cozinhados e pré-congelados? O conceito e o sucesso do gourmet deve-se a isso mesmo, uma vez que tomou o caminho oposto – produtos regionais, biológicos, saudáveis e ecológicos. Prontas para proporcionar novas experiências culinárias, as lojas gourmet têm, de facto, o dom de surpreender, nos mais diversos sectores alimentares. Uma lista de compras gourmet engloba o melhor e o mais sublime da garrafeira, charcutaria, mercearia, frutas e legumes: néctares de castas e colheitas superiores, vinhos de produção limitada, champanhes, espumantes e digestivos em edições especiais, lombo de salmão fumado com anis, manteiga de caranguejo e lavagante, queijo da serra com noz e uva, foie gras com chutney de manga, mostarda de pimenta verde, molho de pesto à genovesa, azeites frutados e aromáticos, vinagre com infusões, compota com champanhe e morango, chá fumado, chocolate com passas e aguardente, biscoitos de azeite, pétalas de ouro e prata comestíveis, frutas e legumes invulgares, provenientes de países distantes… Dá vontade de experimentar não dá? Claro que não tem de abandonar o seu habitual supermercado e comprar exclusivamente produtos gourmet daqui para a frente (até porque a maioria tem preços elevados), mas pode introduzir pequenos elementos gourmet no seu quotidiano, para uma pitada de bom gosto em cada refeição.

Uma prenda gourmet

Esta nova classe de consumidores – os gourmets – não é egoísta, muito pelo contrário, faz questão de partilhar os seus novos achados com familiares e amigos, levando uma compota de castanhas para o jantar de sábado à noite com a melhor amiga ou oferecendo aos pais um cabaz de Natal inteiramente composto por produtos gourmet. Uma tendência cada vez mais popular, que fica sempre bem e surpreende tudo e todos, seja com uma caixa de chocolates Godiva, um sortido de chãs ou biscoitos ingleses ou até uma caixa com açúcar às cores. Oferecer bom gosto é o que está a dar… literalmente!

Para todos os bolsos

A associação imediata à palavra “gourmet” é a palavra “caríssimo” e, embora os próprios profissionais do sector reconheçam que as lojas gourmet não são, de facto, para todos, também argumentam que existem produtos bem mais acessíveis e igualmente tentadores. Para os mais excêntricos, o difícil será talvez escolher entre um Vinho do Porto Quinta do Noval de 1963 (cerca de €3895); um vinho francês Petrus (entre €1800 e €2900); uma garrafa Dom Pérignon adornada com tachas douradas Karl Lagerfeld (€1475); ou caviar Beluga (com um preço de €8200/quilo, percebe-se porque é vendido em recipientes de 30, 50 ou 100 gramas!). Menos extravagante, mas igualmente surpreendente, pode ser uma embalagem de pato assado com cebolinhas e guarnição de figos (€70); um salpicão de Vinhais (€46/quilo); uma garrafa de Chateau Musare, um vinho exótico libanês (€37); ou uma caixinha de trufas com champanhe (€23). Pode, no entanto, fazer uma festa gourmet por ainda menos euros – pétalas comestíveis de rosa ou violeta (€8); esparguete com sabor a alho e salsa (€5/pacote); marmelada de maçã (€4); e compota de ameixa branca (€3)…

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